De Agostinho a Beauvoir. De Simone a Neto. pitacos pretos e feministas sobre a prova do Enem.

             A educação no Brasil é excludente. Ela vem excluindo pessoas negras, pobres, periféricas desde sempre. Mesmo o advento da educação universalista não integrou a maior parte da população. Os currículos escolares não dão conta do pluralismo de vivências e saberes de um país de contornos continentais. Lembro-me da época do vestibular. Nós, aqui no Rio Grande do Sul, líamos O Tempo e o Vento para realizar as provas das universidades federais gaúchas. Em outros estados nem se ouvia falar de O Tempo e o Vento. Nós, aqui no Rio Grande do Sul, estudávamos com detalhe a Guerra dos Farrapos, pouco ou quase nada estudamos sobre a Cabanagem.
Eu vi algumas questões do Exame Nacional do Ensino Médio de 2015. Não vi todas porque não fiz a prova, mas vi algumas, que foram comemoradas pelas feministas, pela militância dos movimentos negros e por outros setores dos movimentos sociais. A redação do ENEM tinha por tema a permanência da violência contra a mulher no território brasileiro. Os textos da prova apresentavam dados sobre mortes de mulheres, sobre estupro, sobre feminícidio. Tinha o número do disque denúncia, 180, e muitas mulheres saíram da prova procurando o celular para ligar para o 1-8-0. Eu vi muitas mulheres com as quais eu compartilhei a luta feminista, neste anos que milito, agradecidas pelo tema da redação. Em todos os agradecimentos eu percebi o mesmo: a felicidade não era sobre só a possibilidade de tirar um notão na redação, a felicidade era por poder escrever para o Estado (sim, a prova é elaborada por um órgão estatal) algo que estamos dizendo há muito tempo : a culpa não é da mulher.
A permanência da violência contra a mulher não é em razão dos comportamentos das mulheres. Bolsonaro e Marco Feliciano vociferaram contra a prova. Doutrinação feminista, dizem eles. Uma raiva e um desgosto provocado pela questão que trazia um trecho de “O Segundo Sexo” de Simone de Beauvoir.

simone-de-beauvoir

               Feliciano e Bolsonaro representam o que há de mais retrógrado, conservador e preconceituoso na sociedade brasileira. São a face do patriarcado, em carne e osso. E o patriarcado se incomoda quando se mexe nas estruturas que ele constrói e mantém. 527 mil pessoas são estupradas no Brasil. 89% são mulheres. 8 milhões de pessoas tiveram que parar por algumas horas para refletir sobre violência contra as mulheres e escrever uma redação. A existência de provas para acessar o ensino superior é um erro? É, é um erro gravíssimo, é ausência de direitos à educação de forma plena. Mas o capitalismo não dá conta de educação integral gratuita para todas e todos, portanto existe uma prova. E dessa vez, essa prova, trouxe um tema que necessita reflexão de toda a sociedade.
As redações produzidas nessa edição do ENEM, por meninas que sofrem assédio sexual todos os dias, por homens que são capazes de refletir sobre a violência sexual, pode apontar soluções. Nessas redações, em milhares delas, haverão recados importantes para o Estado. Sobre culpabilização da vítima, sobre a importância da permanência da Secretaria de Políticas Públicas para as Mulheres , já suprimida no Rio Grande do Sul, sobre a necessidade de adequação das delegacias especializadas em processar crimes de violência doméstica. Nessas redações estarão o acúmulo das vivências de ser mulher do sul ao norte do país, com as suas especificidades e subjetividades.
Em 2015 presenciamos em quase todo o território brasileiro ações que visam eliminar dos planos municipais e estaduais de educação às questões referentes ao gênero. Muitos munícipios retiraram dos seus PME´s a obrigatoriedade do ensino de gênero. A redação do ENEM falava sobre violência de gênero.

          O ENEM é um instrumento que é utilizado em processos seletivos para o ingresso ao ensino superior. As escolas, infelizmente, não possuem uma ementa que atente para uma formação voltada para a construção da cidadania. Há uma fragmentação do ensino, tanto privado, quanto e sobretudo, público. Há uma constante fabricação de estudantes, para a realização de provas, treino mecânico, pouca capacidade de crítica, decoreba. Escolas foram para realizar provas.
Porém, nesta passou-se a exigir estudos de gênero. É o ideal que os planos de ensino sejam configurados a partir do que é cobrado na prova? Não, não é. Mas é um passo, um pequeno passo, que se trate sobre gênero no ENEM. Esse passo, talvez, torne mais fácil a produção de espaços em que se discuta sobre o combate ao machismo na escola. Ouviremos menos “nãos” quando coletivos de mulheres que se propõe a produzir oficinas, debates, aulas em escolas públicas batam nas portas destas para oferecer suas contribuições.
A educação cartesiana não faz o debate de gênero, mas nós fazemos. Nós nos propomos a ocupar as escolas e debater sobre machismo com a gurizada.
Mas não foi só de Simone de Beavouir e feminismo que se fez o ENEM. Teve Agostinho Neto também, que não foi tão celebrado quanto a Simone e o tema da redação. Não foi porque Agostinho é ainda um ilustre desconhecido até dos arautos das academias brasileiras.

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Mas agora, Agostinho passa a ser conhecido em um país que tem sistematicamente negado a real contribuição da negritude para a sua formação.

Teve Pixinguinha e hip-hop, teve negritude na prova do ENEM. Em mais de dez anos de lei 10.639 é importante que tenha negritude na prova. Porque a ausência de negritude nas provas, a ausência de negritude na academia, a ausência de negritude na escola, faz com que a aplicabilidade da lei seja facultativa embora não possa ser. Se é verdade que muitos estudantes nunca ouviram falar na Simone de Beavouir, quantos de vocês, intelectuais comentaristas da prova do ENEM já tinham ouvido falar de Agostinho Neto? Quantos sabem quem é Agostinho Neto? Vocês, que na academia já estão, quantos pensadores negros leram hoje? Vocês, que na academia já estão, quantas estudiosas negras leram hoje? A educação é um instrumento de poder, ela ainda está na mão de quem sempre esteve, a elite branca. Continuará por algum tempo. Mas há pequenas pinceladas de cor e resistência. É pouco, muito pouco, quase nada, mas desperta utopias e renova esperanças.

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