Algumas notas sobre vitimismo

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Vitimismo. Venho pensando bastante sobre essa palavra. Ela já me calou muitas vezes. É uma palavra bastante utilizada para referir pessoa negra que expõe as suas indignaçãoes. No geral essa expressão vem no sentido de querer comparar o sofrimento do negro, decorrente do racismo, a outras dores – afinal, somos todos humanos dizem, iguais na dor, portanto. Escapa, nesse sentido, a noção de empatia, o colocar-se no lugar do outro. Ao estarmos todas e todos no mundo e, como humanas e humanos vivermos igualmente as mazelas do capitalismo, da correria cotidiana, estamos sofrendo igual, sofrimentos iguais. Negros sofrem com racismo, mulheres com o machismo, e assim sucessivamente, todos sofremos com o capitalismo. Logo, as inquietudes da população negra são encaradas como vitimismo. Todo mundo sofre. Parem de sofrer mais.

Esse discurso do vitimismo é muito significativo. Tem o efeito de calar as opressões do racismo para que aqueles que não o sofrem, ou seja, pessoas brancas e em certa medida pessoas de tez clara por serem aceitas como brancas (no Brasil esse fenômeno é conhecido como colorismo, veja mais sobre o assunto aqui e aqui) de modo que as isenta de terem que se confrontar com uma sociedade estruturalmente racista. Opera o silenciamento.

Contudo, a intenção desse texto não é tanto discorrer sobre o silenciamento que não negros fazem operar sobre negros, apesar da referência. Mas de fortalecer a expressividade negra, pois a temática por si só – seja ela referente ao sofrimento, à visibilidade pela qual estamos lutando, pela estética, pela representatividade nas mídias – tem poder interventivo quando se trata da repercussão em outras pessoas negras. Existe uma potência quando levantamos nossas pautas, fortalecimento coletivo, para além do vitimismo do qual somos taxados. Quando conseguimos que uma pessoa não negra consiga entender que o debate não é sobre ela especifica e individualmente, mas que estamos lutando contra um sistema racista que não nos quer e faz questão de nos colocar para baixo, temos um grande avanço. Mas quando uma pessoa negra se sente contemplada em uma fala, em uma escrita de outra pessoa negra, temos aí uma revolução.  O julgamento de vitimismo está nas mãos de quem reproduz esse discurso e tenta calar, não nas mãos de quem quer colocar em pauta aquilo que incomoda. O que incomoda, pede escuta, pede solução, pede ressignificação.

Eu enquanto psicóloga, escuto o sofrimento das pessoas tendo como ponto de partida respeitar como único, como singular. E procuro ser interventiva no sentido de ajudá-las a entender que a condição de ter sido vítima de uma situação traumática não a torna vitimista, mas alguém que precisa ter seu sofrimento escutado e respeitado para que ela possa se liberar da sensação de culpa e consiga seguir em frente. Não esquecendo o que passou, mas podendo fazer outros movimentos sabendo de onde veio.

Nesse sentido, quero deixar um pedido, não para pessoas não negras que não conseguem prescindir do discurso que nos culpabiliza pelo racismo, que repetem o chavão de que nos  utilizamos do vitimismo para conseguir consternação. Tentam relativizar esse sofrimento porque não o vivem. Meu pedido é para que negras e negros não deixem de expressar o que incomoda. Que pensem no conjunto de pessoas que poderão se enxergar naquela fala, naquela escrita, naquela arte. Seu sofrimento é legítimo, embora sinta que há um esforço que muitas vezes parece invisível para deslegitimá-lo. Porque racistas se escondem atrás do humanismo. Desse modo, não deixem de se sentir capazes de fazer qualquer coisa em função do vitimismo pelo qual são pré-julgadas. Que continuem produzindo ou que se sintam autorizadas a começar ou recomeçar apesar dos rótulos. Reacionarismo sempre vai existir. O que não pode deixar de acontecer é a luta pela liberdade.

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