Patinete

Meu pai morreu do coração. O coração. Aquele que batia, dentro tinha sonhos. Ele sonhou que ia se formar doutor – não importa de que, nem de quem. Homem negro, num país pobre – de espírito. Ele bebeu, bebeu, fumou, fumou. Tinha, sim, altivez, digna de um príncipe. E loucura, qual Dom Quixote. Onde estavam as respostas para um rei destituído de seu trono? Morreu rindo da tristeza, porque o mundo onde nasceu não soube reconhecer a sua grandeza. Era só meu pai. Ainda assim um rei, tirano muitas vezes, ninguém aqui é santo. Um Campos, não um Silva, por mero detalhe. Era igual a qualquer preto nesse país: esquecido, tendo que lutar para ser alguém do nada. Não tinha herança, a não ser simbólica. Mas não é essa uma baita herança?

A mãe dele queria que fosse doutor. Passava roupa “pra fora” para os ricos, que eram os brancos. Não reclamava, só queria que os filhos estudassem. Para ele não deu, apesar do louvor no Ginásio. O serviço militar convocou provocando desvio, raiva, rompimento e a erva apareceu para dar conta de alguns imperativos.

O pai dele queria que fosse doutor e não jogador de futebol, porque negro tem que estudar, tem que ter título, se não é Zé Ninguém. Não deu. O mandato do pai, que era meu avô, não pode ser cumprido, era comprido demais. O futebol, balancinho de guri, foi tirado porque amigos precisam de amigos e balas às vezes de costas. Briga de bar e o cara vira patinete.  Cicatriz em forma de centopeia no meio da paleta, quase uma tatuagem. Impressionante! Mas se os gatos tem sete vidas, meu pai tinha incontáveis, porque era caprichoso com as palavras e isso faz a diferença para quem é preto. Conquistou cargo em serviço público porque, charmoso, sabia esconder debaixo da cadeira aqueles sapatos tão furados e debaixo da cabeleira crespa, a doideira.

E em casa, faltava luz, a CEEE não perdoa. A mãe (e essa é uma outra história) contava histórias para afastar os medos que vem com a escuridão… enquanto os bares da cidade ficavam mais ricos – ou menos pobres.

Tanta coisa no meio.

60 anos, e o céu não pode esperar mais. Dizem que os homens pretos no Brasil vivem mais ou menos até os 60. Tem os que vão muito mais cedo.

Abracei os sonhos, capenga do jeito que sou porque tem heranças se instalam na alma da gente, e com as mesmas ferramentas e as que fui agarrando no caminho, dei seguimento, com a vantagem de viver em um tempo em que as possibilidades de ascensão são ao menos um pouco mais viáveis para os pretos. Há quem odeie. Mas como se diz por aí, odiadores odiarão.

Quantos pretos igual a meu pai? Quantos outros já se foram porque o destino foi traçado pela ignorância, falta de empatia ou desprezo daqueles que fazem as leis?

As coisas ainda são difíceis do outro lado da margem, a luta é diária. Eu conheço essa história, não porque ela é minha, mas porque ela se repete. Mas somos bravos guerreiros, enquanto alguns perecem outros se levantam.

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