Conjugando o verbo almoçar.

Ando sempre meio dura. Sem grana. Me formei psicóloga faz pouco tempo, e como meus colegas de profissão bem sabem, o começo é difícil mesmo, é uma peleia. Porém, ainda assim, tenho o privilégio de poder escolher às vezes onde almoçar, em casa ou na rua. Essa semana almocei em um grande shopping de Porto Alegre. Era caminho para o meu trabalho e ainda poderia ir ao banco pagar umas continhas. Afinal, sou uma cidadã de bem. Contudo, queria mandar às favas essa posição, embora não tenha como recusá-la. Lutei tanto para conquistá-la por tantos outros que vieram antes de mim e não puderam.Fella Davis

Na praça de alimentação, já com a minha comida servida, procurava uma mesa vaga. Logo ali, adiante, um casal liberou uma. Esperei o rapaz que veio rápido limpar para a próxima cliente que era eu. Vi que era um rapaz bem jovem, de tez muito escura. Enquanto eu esperava, fiquei constrangida. Não consegui nem agradecer, fiquei calada, como ele, que sequer olhou para mim. Sentei, comi um tijolo ao invés de comida. Levantei a cabeça e vi o que era óbvio: muitos negros, muita tinta, servindo na nova Casa Grande. E eu, negra também, do outro lado? Sou negra da casa, como junto com os brancos? Sim, pois a maciça maioria era branca. Os que serviam, maioria negra. Somos todos iguais? Mas que igualdade é essa que se diferencia por cor da pele?

Leio notícia do Sul21 dizendo que ontem foram trazidos muitos haitianos para Porto Alegre do Acre em um ônibus, com a promessa de que iriam para São Paulo, Santa Catarina. Chegaram aqui e desconfiados, “foram reticentes” com as autoridades que os receberam. Não sabiam para onde estavam sendo levados. Seria uma outra modalidade do navio negreiro? Serão subempregados, não terão muitos direitos contemplados, embora existam. Não estou falando de uma escravização nos moldes do Brasil império, mas de um outro escravismo, mais sutil, com vestes brancas de “inclusão para quem tem menos”. Menos capital, menos educação, empregos garantidos: servir aqueles que tem mais capital, mais educação.

Qual o lugar do negro em nossa sociedade? Eu me pergunto, sentada na minha mesa. Pensava em tudo isso e foi com muita dificuldade que consegui sair dali sem parar para conversar com algum deles. Esses negros são estrangeiros. Eu me senti estrangeira também. Estão por toda a cidade, espalhados pelo Brasil, basta levantar a cabeça e olhar. Vem do continente africano, americano… à procura de emprego, de mais possibilidade de vida, de liberdade. Queria saber quais são os seus sonhos, o que querem além de servir aos outros. Estão dentro da Casa Branca fazendo o que os negros brasileiros fizeram e ainda fazem, por tanto tempo. São estrangeiros, assim como meus antepassados um dia foram.

Na primeira vez que me dei conta de que haviam negros estrangeiros por minha cidade pensei: que legal, vieram para o Brasil por conta dos convênios entre as universidades! Vieram buscar formação. Ingenuidade a minha. Vieram atrás de coisa muito mais elementar, garantia de sobrevivência, para seus familiares, para si mesmos. Triste realidade a nossa que segue ofertando aos negros o que eles aprenderam a ter desde que foram forçados a sair de sua terra, a senzala ou a entrada pela porta de trás. Quantos anos será que seus descendentes terão de esperar para entrar pela porta da frente? Mais 100 anos?

Eu queria outras políticas, outras atitudes. Mas ainda há quem reclame das cotas, que se dirá se garantir direitos aos estrangeiros de conquistarem um lugar menos exposto ao sol de Porto Alegre?

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